‘Um fato é inegável; o ambiente universitário proporciona muitas possibilidades de trabalho. Eis que nosso amigo Pedrinho do Violino, numa dessas conversas de corredor, soube que um amigo estava com intenção de incorporar um violinista à sua banda de bailes!’
Trata-se de uma ‘gig’ bastante profissional, com shows agendados quase todos os finais de semana em eventos que incluíam formaturas, casamentos e bar-mitzvás¹ por exemplo. Entre os compromissos estavam os ensaios, dois por semana em estúdios que cobravam por hora. Pedrinho ainda não conseguia ordenar os fatos em sua cabeça; quanto será que eles pagam aos músicos? Quem paga o estúdio? Será que minhas roupas servirão para esse trabalho?
Não há outra maneira de saber estes detalhes senão conversar, negociar com o responsável pela banda e avaliar a situação. Uma banda profissional como esta, costuma fazer de quatro a oito eventos por mês em média. Claro que devemos levar em consideração que podem ocorrer meses com pouca atividade e outros muito movimentados, como no caso de haver muitos feriados por exemplo. No caso do Pedrinho, ele não sabe e provavelmente nunca saberá quanto o produtor/empresário da banda cobra para fazer um evento de médio ou grande porte, mas ele já foi informado de antemão que seu cachê será sempre entre trezentos e quatrocentos e cinqüenta reais por show, fato que o deixou bastante animado. Ele não terá despesas com a banda além de seu transporte para os ensaios. Estes serão pagos pela própria banda, que sempre separa uma margem dos cachês como reserva para cobrir as despesas mensais de estúdio.
Cabe ao produtor da banda interpelar o aspirante à vaga em sua banda em questões como, disponibilidade de tempo para ensaio, viagens, seu equipamento etc. Os trajes para os eventos geralmente são esporte-fino ou mesmo terno e gravata. Quando for algum tipo de festa temática como reveillon, bailes à fantasia por exemplo, obviamente serão preparados figurinos para a ocasião.
Se Pedrinho já estava pensando em ‘turbinar’ seu instrumento para poder amplificar seu som, agora é a hora.
Os trabalhos começam logo, mas longe dos palcos. Pedrinho recebe uma lista com as músicas que compõem o repertório da banda, mais de cinqüenta! Seu primeiro trabalho será obter as gravações delas rapidamente e ‘tirar’ suas partes de violino o mais próximo possível do original. Seria melhor decorá-las para que não fique dependente de leitura de partituras. Nos palcos das bandas de festas, as estantes atrapalham e não ajudam muito na composição visual, melhor se não precisar delas.
Pedrinho terá que lançar mão de um recurso polêmico, porém muito praticado em todo mundo; ‘baixar’ as músicas pela internet. Muito se discute sobre a legalidade deste procedimento, mas o fato é que este é apenas mais um aspecto da revolução que a internet ainda exerce no mundo atual. Toda a classe artística está revendo seus conceitos para se adaptar a essa realidade, já que as tentativas de conter este movimento se mostraram infrutíferas. Mais adiante voltaremos a esse assunto.
Voltando ao caso do Pedrinho, ele já tem alguma intimidade com essa prática de compartilhamento de arquivos digitais. Sua tarefa agora será acessar seus programas e ‘sites’ que possibilitam fazer ‘download’ de arquivos em mp3. Alguns deles são o E-mule, U-Torrent e o ‘site’ 4-Shared. Com se trata de mais de cinqüenta músicas, ele terá que utilizar mais de um recurso simultaneamente, pois algumas músicas são mais difíceis de encontrar do que outras. Na medida em que vai arquivando músicas em mp3 no seu computador, já pode começar a ‘dissecar’ uma de cada vez, ensaiando sozinho em seu quarto suas partes de violino. Às vezes ele se deparava com peças bastante complicadas, com execução peculiar ou solos muito rápidos. Sente necessidade de mais informações sobre o artista em questão. Foi então que ele se lembrou de uma ferramenta muito utilizada em todo mundo, um achado no mundo virtual, o Youtube! Quantas horas ele passou sentado em seu quarto assistindo aqueles milhares de vídeos apenas por entretenimento ou observando orquestras sinfônicas ao redor do mundo executando lindamente aquelas obras eternas!
Já que é possível encontrar quase tudo no Youtube, por que não procurar demonstrações de violinistas famosos ou anônimos executando aquelas peças que ele precisa aprender rápido? Bastou digitar no topo da página os títulos das músicas ou os artistas e pronto; instantaneamente aparecem dezenas de vídeos relacionados. Agora Pedrinho pode mesclar sua interpretação com algumas idéias interessantes que ele observou pelos vídeos, otimizando seu trabalho.
Na semana seguinte acontecerá seu primeiro ensaio com a banda e Pedrinho ficou encarregado de chegar com vinte e duas músicas ‘embaixo dos dedos’, algumas com solos de violino, outras apenas com frases discretas.
Chegou o dia! Pedrinho está no estúdio com toda a banda reunida, falatório, cabos espalhados, ruídos de toda espécie enquanto se afinam instrumentos, regulagens de microfones dos cantores...
Hora de ‘passar’ o som do violino, sorte que Pedrinho chegou com tudo em cima, captador instalado no instrumento, cordas novas etc. Do outro lado do vidro o operador quer saber o que Pedrinho precisa; volume, retorno, reverb², agudo. Pedrinho não consegue pensar em uma resposta específica, sente que está bom e pronto. Começa a primeira música e ele nota com espanto a massa sonora furiosa, todos tocando com força em um ambiente minúsculo. Ele está seguro para executar suas partes, mas o momento do seu solo chega e passa, de forma que ele quase não escutou o que tocou. Durante o ensaio, ele precisou pedir mais volume para o violino, o que acarretou desagradáveis ruídos, a microfonia que tanto irrita os músicos e o ouvinte. Para aprender a domar esse problema, será preciso por parte de Pedrinho e do técnico de som, um maior cuidado com a equalização do instrumento, já que é a primeira vez que a banda trabalha com um violino de verdade; antes o tecladista se encarregava de simular o timbre das cordas. Para isso, se faz necessário um aprofundamento nas características acústicas do instrumento.
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