‘A rotina de shows semanais tem sido gratificante. Pedrinho do Violino progrediu bastante em vários aspectos. Ganhou desenvoltura e segurança nos palcos, aprimorou sua técnica aliada a maior capacidade de improviso, está muito familiarizado com a parafernália em volta dele. Sem contar que nos últimos meses adquiriu alguma autonomia financeira com a entrada de dinheiro dos cachês. Mas Pedrinho tem notado que sua rotina tem possibilitado muitas horas ociosas durante a semana, principalmente entre segunda feira e quinta feira. Os ensaios acontecem apenas dois dias por semana e duram três horas. Ele pode separar um período diário para praticar seu instrumento e ainda assim sobra bastante tempo. Porque não procurar meios de preenchê-lo com mais atividades paralelas?’
Durante um ensaio com sua banda, Pedrinho ouviu uma conversa paralela entre seus companheiros na qual um deles comentou que passaria quatro dias em função de uma gravação de um artista que lançaria seu CD em breve. Seriam sessões de gravação em grande estúdio da cidade, pagariam o músico por hora trabalhada. Inevitavelmente, Pedrinho começou a imaginar a possibilidade de se inserir no meio. Na primeira oportunidade, abordou seu companheiro a respeito do assunto, se disse interessado em entrar no mercado de músicos de estúdio e colheu informações importantes com o colega. Uma das instruções que recebeu através do amigo foi procurar um determinado músico que estava produzindo uma cantora gospel, cujo trabalho necessitava da participação de um violinista em algumas músicas. Pedrinho chegou na hora e lugar certos; foi convidado imediatamente a participar. Recebeu gravações prévias das músicas que iria participar e as partituras para estudar com antecedência. Teria uma semana para praticar as partes de violino ‘em cima’ da gravação, que foi entregue só com as bases e uma voz guia.
Dias depois, nosso amigo adentrou o estúdio para começar os trabalhos. O técnico se dirige a Pedrinho e pergunta qual microfone ele prefere entre três opções: Shure SM81; Neumann U87 ou AKG C414. E agora?
Microfonar um instrumento é uma ciência que requer cuidados especiais. No caso de um violinista, deve-se levar em conta o posicionamento, ou seja, o músico precisará executar as músicas com muito pouco ou nenhum movimento corporal para não sair do campo de atuação do microfone e não alterar o timbre captado com fidelidade com muito custo. Deverá ter cuidado com ruídos extras, inclusive a sua respiração. O posicionamento exato do microfone por si só já é uma tarefa delicada, pois existem diversas possibilidades que devem ser testadas. O microfone pode ser posicionado a 60, 40 ou 30 cm. acima do instrumento, pode ser apontado para o corpo do violino ou para os ‘efes’¹, etc.
Microfones são transdutores eletroacústicos que transformam energia acústica em energia elétrica através do deslocamento de membranas, fitas, diafragmas ou outros componentes que captem vibrações sonoras. São classificados em diversas categorias, cada uma com sua aplicação específica:
-Dinâmicos – utilizam o eletromagnetismo. Possuem diafragma, bobina móvel e imã.
-De fita – uma fita muito fina vibra sob um campo magnético, gerando uma pequena tensão em suas extremidades. Necessita de um pré-amplificador.
-Eletromagnéticos de imã móvel – possuem bobina fixa.
-Diferenciais (canceladores de ruído) – possuem duas cápsulas montadas em oposição, com polaridades invertidas, ocasionando cancelamento de fase.
-Condensadores – utilizam o princípio eletrostático. Necessita alguma alimentação como pilha, bateria, fonte externa ou sistema ‘phantom power’.²
Cada modelo de microfone abrange uma gama de freqüências específicas. Quando um microfone cobre toda a faixa de freqüências (de 20Hz a 20 KHz), consideramos este um microfone de resposta ‘plana’ (flat).
Obviamente, Pedrinho não sabia de todos esses detalhes técnicos, mas percebeu o quanto isso poderia afetar o resultado final de seu trabalho. A gravação de uma obra em CD apresenta um caráter especial, diferentemente da performance ao vivo; seu registro será um legado para a posteridade, será conferida por ouvintes distintos em lugares e épocas diferente. Esses fatores já compõem argumento mais que suficiente para encarar a tarefa com todo o cuidado e responsabilidade possível. Uma vez registrado o violino de Pedrinho naquela gravação, após mixado e masterizado o CD, estará ali impresso definitivamente uma amostra de sua personalidade musical no que diz respeito a sua técnica, interpretação e o timbre do seu instrumento.
Por força da situação, Pedrinho achou prudente delegar a escolha do equipamento ao próprio técnico, confiando em sua experiência na captação de instrumentos de toda espécie.
Já a postos para começar a gravar, levaria ainda alguns minutos até que músico e técnico encontrassem a configuração perfeita para a tarefa; posição do microfone, distância da fonte sonora, equalização, compressão etc. Em seguida viria a grande prova de fogo para Pedrinho: ao sinal de ‘ok’ do técnico do outro lado do vidro do ‘aquário’, é liberado em seu fone de ouvido, o áudio da música a ser gravada, um ‘play-back’³ no qual Pedrinho se guiará para registrar sua trilha de violino. Neste momento ele percebe como é intimidador para um iniciante, executar uma obra nesta situação, em estúdio profissional sob olhares do produtor de outros músicos, tendo que tocar com precisão próxima da perfeição, com limitações de movimentos corporais, nervosismo, tempo passando...
O fato é que esta foi uma grande oportunidade para Pedrinho experimentar esta outra faceta da vida de um músico profissional. Com a prática, a fluência se torna mais natural e o rendimento nas sessões de gravação é muito mais positivo, sem contar o conhecimento técnico adquirido nesse meio em relação à microfonação, ambiência, equalização e processamento de efeitos como reverb e compressores.
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